May, 2010


28
May 10

As Árvores Também Se Abatem

(a pedido de várias famílias…)

A floresta laurisilva é provavelmente uma das maiores riquezas que Portugal tem. É considerada pela UNESCO como património da Humanidade e é considerada como o expoente máximo da biodiversidade.

A biodiversidade é, a vários níveis, uma coisa boa. No mundo das árvores representa aquilo que para nós os humanos entendemos como direito à diferença, tolerância, multiculturalismo, intercâmbio de ideias, riqueza de opiniões.

Curiosamente, no mundo das árvores, há elementos que combatem a biodiversidade: seja porque monopolizam todos os recursos existentes, devido ao seu tamanho, ou porque os monopolizam devido a um ataque concertado de clones, impedem o crescimento de outras espécies e por esse caminho eliminam a concorrência. São as versões vegetais dos autoritarismos de direita e de esquerda: ou manda um e mais ninguém, típico das ditaduras e das monarquias, ou então mandam todos desde que sejam todos iguais, reduzidos à mediania de simples clones, típico dos regimes comunistas.

A sã concorrência e a biodiversidade, no mundo das empresas e dos negócios, também é uma coisa boa. Desde o conceito de “creative destruction” de Schumpeter até estudos mais recentes, tem sido provado que existe uma forte relação entre a existência de um ambiente competitivo e a existência de um ambiente capaz de inovação.

Tudo isto vem a propósito da possibilidade de uma OPA hostil da Telefonica sobre a Portugal Telecom.

Muita gente sabe, mas para que fique claro, não gosto da PT. Nunca iria trabalhar para a PT, nem que me dessem o cargo do Zeinal Bava e me duplicassem o salário (nem ia para a M$ mesmo que me pagassem o dobro do Steve Ballmer). Tive oportunidade directa de ver o tipo de práticas concorrenciais da PT (e da M$) e da falta de ética das mesmas (há-de haver pessoas na Telepac que se lembrarão do caso Bertrand e do caso BFE). Mas eu gostar ou não, não vem ao caso.

É que, para além das guerras concorrenciais entre as empresas, há valores mais altos que se levantam. E a minha opinião, desde há muito tempo, é que a PT e a sua protecção por parte de sucessivos Governos, numa lógica de supostamente ser uma coisa estratégica para Portugal e de “uma PT grande e com escala“, tem sido um obstáculo à concorrência e à inovação em Portugal, e portanto um obstáculo à sua competitividade. A OPA demonstra isso mesmo: a PT vale mais do que a sua capitalização bolsista e portanto há alguem que não está a fazer direito o seu trabalho e que está a prejudicar os accionistas.

Que me desculpem algumas pessoas e alguns amigos que trabalham na PT, mas no geral a PT é um 2-em-1: é uma árvore enorme que seca os recursos à sua volta, ajudada por um exército de trabalhadores que são eucaliptos clonados. E se não são, tornam-se, são absorvidos pelo culto da mediania. A árvore grande e os eucaliptos não gostam de quem é diferente, de quem abana o barco. Não lhes dá jeito.

A compra da PT por parte da Telefónica pode alterar este panorama? Pode ajudar a tornar o país mais competitivo, mais inovador e mais atractivo para a criação de startups? Não. No curto prazo, não.

No curto prazo, é uma árvore maior. Que vai secar ainda mais recursos à sua volta. Que vai abrigar à sua sombra um grupo ainda maior de clones. Só que desta vez a normalização e a clonagem vai obrigar a que todos tenham de falar Espanhol. No curto prazo, por muito que doa prestar vassalagem a um qualquer nuestro hermano, os clones vão-se deixar ficar. E mesmo aqueles que não eram clones, que foram absorvidos, mas que têm aspirações a deixar de o ser, mesmo esses vão-se deixar ficar. No curto prazo.

No longo e no médio prazo o cenário pode ser diferente. Por várias razões. Numa primeira fase vão haver aqueles que se recusam a prestar vassalagem aos novos evil overlords. E que vão sair. Sabem que têm as capacidades para fazer melhor, mesmo que isso implique menos segurança salarial. Numa segunda fase, depois da inevitável reestruturação, vão sair aqueles que vão ficar lixados porque estavam à espera de subir na hierarquia, de cheirar mais de perto os perfumes do último andar onde pára o elevador, mas que na realidade são ultrapassados por um qualquer camarada do país ao lado, catapultado de lá equipado com um páraquedas, e passam a ter de cheirar outras coisas. Alguns desses irão procurar outros sitios com elevadores, outros resolverão fazer alguma coisa de jeito. Finalmente, numa terceira fase, haverá aqueles que não sairam antes, que se deixaram ficar à espera tempo demais, e que, na sequência da reestruturação, são recursos dispensáveis, a bem do aumento da eficiência e da eliminação de competências duplicadas. E são postos na rua, adeus e um queijo.

E aí sim, pode haver um contributo positivo para um ambiente de empreendedorismo e de inovação.

Lá fora, apesar da crise (ou se calhar por causa dela), a actividade em termos de empreendedorismo aumentou durante 2009. Diz-se que a necessidade é a mãe de todas invenções. As necessidades consequentes de um despedimento podem levar muita gente a apostar directamente no seu valor. Ou, se não for o caso disso, o despedimento vai lançar no mercado uma série de pessoas que com certeza darão melhores contributos numa empresa mais pequena, onde podem ser diferentes, onde a diferença é um factor que conta.

Se o Estado e o Governo Português querem contribuir para um país mais competitivo, para termos cidades mais atractivas e mais empreendedoras, o melhor que faz é deixar o mercado actuar. É não proteger a PT, como protegeu no fim dos anos 90, adiando a liberalização do mercado, o que custou a Portugal uns anos de atraso no desenvolvimento e implantação da Internet. Quem não se lembra do Eng Guterres em frente a um papel com um “@” a fazer caras inteligentes? Ou da tomada de assalto do domínio PT, só porque uns políticos queriam ter um gov.pt para serem como o Bill Clinton e estavam-se a marimbar para as regras da IETF.

Contas feitas e concluindo: a Telefonica pode ser uma espécie de um Ent tolkienesco, que absorve o bonsai PT e fica com uma colecção de eucaliptos à viver à sua volta.

Ao lado, pode florescer uma floresta laurisilva, pujante de variedade.

As árvores também se abatem.


22
May 10

As Escolhas do MV (XXVII)

Sim, sim, já sei… Sem mais delongas:

  • a escolha tecnológica desta vez tem ser obrigatoriamente a realização do evento Google I/O, onde foram apresentadas as grandes novidades. Entre elas a versão mais recente do sistema operativo Android (versão 2.2 Froyo) e o produto Google TV. Cada vez mais fica claro que os telemóveis com o sistema Android vão deixar o iPhone a milhas. Se é que isso já não está a acontecer: no primeiro trimestre deste ano as vendas de telemoveis com Android suplantou as vendas de iPhones. É evidente que o iPhone não deixará de vender, nomeadamente a uma franja de utilizadores pretensiosos.
  • aqui há umas semanas atrás já tinha deixado uma referência para uma lista de aplicações que é escusado desenvolver e usar para montar um negócio. Bem, aqui está mais uma do género: oito websites/webapps que não vale pena criar/construir/usar. São 18 categorias em que muito dificilmente investiriamos.
  • relativamente a música e videos, o destaque tem de ir para a morte de Ronnie James Dio. Uma das grandes vozes do hard rock e heavy metal que tive a oportunidade de ver em Londres no Hammersmith Odeon no dia 13 de Dezembro de 1993. Parece que há um video do concerto que não foi lançado. Se for lançado, lá vai uma sessão de “Where’s Wally?”… Duas das minhas músicas preferidas, “Rainbow in the Dark” e “Mystery”.
  • nestes últimos 15 dias acabei de ler os livros que referi nas “Escolhas” anteriores. Como acabei com a antologia comemorativa da colecção Xis, e como não tinha nada de especial para começar a ler, resolvi debitar alguns números da colecção Vampiro, nomeadamente os escritos pelo Mickey Spillane e em particular aqueles em que o artista principal é o Mike Hammer. Ao pé dele o Chuck Norris não tinha hipótese.
  • há desemprego; para minorar o problema, o Estado resolve fazer “investimento” público numas obras públicas (pelos vistos a política do cimento dá jeito a todos) para criar 100.000 postos de trabalho; para criar os 100.000 postos de trabalho são precisos 100 milhões de Euro. De onde vem o dinheiro? Ou se arranja emprestado (e essa mama parece que acabou) ou então esfolam-se mais uns contribuintes para lhes sacar os 100 milhões. Os contribuintes, especialmente as empresas, têm menos 100 milhões nas mãos. Qual a consequência? Alguns meses mais tarde  o emprego aumentou: foram despedidas 100.000 pessoas e extintos 100.000 postos de trabalho. Resultado líquido nos números de desemprego: zero. Resultado líquido em votos: 100.000. Impacto na poluição sonora: mais 100.000 vuvuzelas que se juntam à halucinação colectiva do Mundial de futebol.

E com esta vos deixo.


21
May 10

Moving from a Vertical to a Horizontal Industry

Lets see if the message gets through by using drawings….

horizind

Mainframes lost.

horizind1

Apple Macs lost.

horizind2

Who’s gonna lose?

Do you get the picture morons? Try to spot the vegetables.

(adapted from http://www.refresher.com/!paranoid.html)


14
May 10

Twitter’s Kills Can Become Twitter’s Killers

While having lunch today with some friends, and in the course of conversation, it ocurred to me that Twitter might taste some of their own medicine and be killed by those that Twitter is trying to kill with said medicine.

A month or so ago, Twitter announced their own desktop/mobile client for several platforms. This move obviously puts at stake several startups that have developed products based on the Twitter firehose.

If Twitter indeed has the power to kill several apps and startups, its also true that those clients, apps and startups also have some power over Twitter. And it might just be bigger.

Currently Twitter traffic is generated mostly out of Twitter’s web interface, namely through desktop or mobile apps. As such its Twitter client apps that own the audience and the eyeballs of Twitter users. What if those killed by Twitter used that audience, and the power they bring, to turn around and kill Twitter?

All it would take is that the app/client developers created their own central infrastructure, maybe jointly owned, and release new versions of their apps that connected to the new central infrastructure (let’s call it opentwitter.com) instead of connecting to twitter.com. Maybe initially the client apps would post tweets to both services. And later switch off feeding tweets to Twitter. Maybe those client apps could hijack twitter.com name resolution and redirect users transparently to opentwitter.com (yes, that would be sort of evil…).

In a single but coordinated move, Twitter would find themselves out of its audience’s attention and eyeballs.

This would also bring about the possibility of an IRC-like federated twitter server nodes, assuming that all major twitter client apps developers agreed on a common protocol both for client-to-server and for server-to-server tweet interchange.

In a single swoop Twitter would find themselves out of more that 50% of their users and it would have to play ball with those holding the firehose. Or risk being left by themselves watering their own walled garden with much smaller hose.


9
May 10

As Escolhas do MV (XXVI)

Ando completamente relapso mas, entre sprints na Rua do Salitre e administradores que boicotam reuniões do Conselho indo para o hospital, não foi uma semana fácil e a vontade foi pouca. Sem mais delongas:

  • na semana passada, no Ignite, algumas pessoas perguntaram-me o que é que tinha usado para fazer a minha apresentação. Resposta: o Prezi. A referida apresentação está aqui e podem também ver a apresentação que usei na minha defesa de tese de mestrado.
  • no atrás referido evento, tive a oportunidade de ver apresentações de projectos de algumas startups portuguesas. Fiquei bastante bem impressionado com algumas das tecnologias e algumas das apresentações. No entanto, e tendo em conta o tema da minha apresentação, era boa ideia que alguns desses projectos (ou quaisquer outros) dessem uma olhada no que é verdadeiramente uma inovação ou uma tecnologia disruptiva. Um produto que é ligeiramente diferente não é uma inovação (alguns chamam a isso uma “inovação incremental” mas eu não concordo). Uma verdadeira inovação é um produto ou tecnologia que permite aceder a um mercado muito maior, 10x maior. Tipicamente um mercado que não pode comprar um produto semelhante por ser demasiado caro. A segunda caracteristica de uma verdadeira inovação é precisamente o preço; por ser 10x menos é que um mercado muito maior pode ser criado. A terceira caracteristica é contra-intuitiva: o produto inovador inicialmente é pior. Seja porque é mais simples ou porque é mais lento, menos perfeito, menos preciso, etc. É isso que lhe permite apanhar os players estabelecidos na contracurva. A única forma de concorrer não é tentando copiar os players existentes e adicionar mais um “bocadinho”. Também se pode concorrer pegando num produto existente e subtrair bocadinhos (ie. mais simplicidade, menos preço, etc).
  • a certa altura da minha vida tinha oportunidade de chegar a casa às tantas da manhã e ainda ficar a ver o Chillout Zone no VH1/MTV, não tanto pela música mas mais pelos videos. Até aí eu era mais rock, embora também gostasse de coisas tipo Jean Michel Jarre ou Kraftwerk. Mas a partir daí comecei a ouvir mais coisas tipo chillout/ambient, especialmente quando estou a trabalhar (o headbanging não é compativel). Fiquem-se com um site que tem as playlists todas do Chillout Zone, e com a minha selecção de videos retirados desss playlists.
  • o livro lido até ao fim nestes últimos dias foi o VC Way. O livro que deixei a meio foi o Utopia (Thomas More) que consegue ser um chorrilho de dogmas socialistas/colectivistas ainda maior do que o que eu imaginaria. A meio estão o Winning Angels e a Antologia Comemorativa da Colecção Xis (tenho a colecção toda, assim como a do Vampiro, heranças do meu pai).
  • ainda bem pá, que o 25 de Abril acabou com essas fantochadas do Fado, Futebol e Fátima. Hoje os portugueses já não são enganados por esse tipo de propaganda fascista.

That’s all folks…