Empreendedor Voluntário à Força

Quando era puto queria ser astronauta. Ou então escritor. Ou professor de escola primária. Nunca me passou pela cabeça o ter negócios por conta própria ou ser empreendedor.

Longe disso. Nem sequer havia na minha família quaisquer antecedentes do tipo. Os meus pais trabalharam toda a vida na função pública. Idem a maioria dos meus tios e tias. Ou eram funcionários públicos ou trabalhadores por conta de outrém. Quando terminei a faculdade em 1992 a minha ideia era ficar a fazer trabalho académico, daí ter estado algum tempo como bolseiro-investigador no LNEC.

A entrada nesta cobóiada do empreendedorismo deu-se de forma praticamente acidental. Aconteceu assim. Embora tivesse o exemplo de empreendedorismo da Cristina, com quem tinha acabado de casar, a minha ideia continuava a ser a de fazer uma carreira académica (que não tenho deixado de prosseguir). Nunca a de ser eu próprio empreendedor. Acabei por o fazer quase como acidente de percurso. Como voluntário à força: não me deram alternativa.

Eu explico.

Em 1993, no LNEC, eu e o Luis Sequeira criamos o primeiro (ou um dos 5 ou 6 primeiros) servidor web em .pt (leo.lnec.pt). O meu trabalho de final de curso era sobre sistemas de multimédia e hipertexto e acabei por dar com o na altura incipiente HTML e com o Mosaic (mais tarde Netscape). Eu e o Sequeira começamos a fazer um grande estardalhaço no LNEC com aquilo. Para ajudar à festa tinhamos começado a usar o Linux e andavamos sempre com as 4 diskettes de instalação no bolso (sim, 4). Faziamos aplicações basicas (tipo agenda telefónica, consulta ao index da biblioteca, etc) em shell script e em Perl e qualquer PC que nos aparecia à frente levava com o Mosaic e com acesso ao leo.lnec.pt. Alguns também eram convencidos a ficar com Linux. Um dia fomos chamados ao gabinete do director. Tinhamos causado um “problema” institucional porque tinhamos “pisado” nas áreas de responsabilidade de alguém. Era preciso autorização para instalar sistemas e aplicações e o camandro.

Foi o sinal para que eu e o Luis começassemos a pensar em explorar a coisa “externamente”. A ideia não era criar um negócio, uma startup. A ideia era por um PC com 3 ou 4 modems, à semelhança das BBS da altura, mas com a diferença de dar acesso ao email e às news da Internet. E se calhar fazer biscates de web, se pegasse. O Sequeira também não era propriamente empreendedor e não estava muito convencido. Eu é que era (sou) muito irrequieto. E espalha brasas. E acabei por o convencer. O meu argumento: 1) o PC estava em minha casa, não havia problema nenhum, ele não precisava de incomodar a família; partilhavamos o “investimento” e o trabalho; 2) se havia malta a ganhar uns trocos com os registos nas BBS, também podiamos ganhar algum sem grande trabalho; inclusive até podiamos fazer o trabalho de administração da maquina através de modem…; 3) na pior das hipóteses podia ser que a Transpac (fornecedores de X25, hoje Telepac) passasse a fornecer acesso Internet em Portugal e aí nós ficavamos bem encaminhados para arranjar um emprego lá… Ironias da vida.

Mais tarde, quando a coisa começou a parecer que podia ser um negócio, eu e o Luis andamos a ver se arranjavamos um financiamento ou um empréstimo para arrancar com a coisa mais a sério. Imaginem 1993, com a cultura de empreendedorismo e capital de risco existente em Portugal (not!), aparecerem dois artistas, um de fatinho e o outro de blusão de cabedal, a pedir dinheiro para concorrer com uma empresa estatal. Olhando para trás acredito que devia ser cómico. Acabámos por começar a empresa com mais 3 pessoas, com 2.000 contos (10.000€) de capital social (400cts/2000€ por cada sócio). Isto foi em 1994. Em 1998 a Esoterica foi vendida por cerca de 3 milhões de Euro.

E nunca cheguei a arranjar um emprego na Telepac. É que nem sequer uma propostazita… Deve ter sido por causa do cabelo comprido. Digo eu.

Depois de ter saído da Esoterica, estive um ano a pensar na vida. E, na altura, depois de 4 anos sem férias e com montes de chatices, o pensamento era mais tipo “já me chegou de empreendedorismo”. O que vinha a calhar mesmo era um emprego porreiro onde eu pudesse fazer o que sabia (tecnologia), ganhar razoavelmente e não ter chatices de negócios. Andei a fazer consultoria e a vender as minhas competências. Estive na HLC, na Telenet e noutros. Fiz consultoria para a E3G/Oni. Para a MediaCapital. Não ganhei nada em termos de me proporem um emprego decente para as competências que eu achava que tinha. Minto: tive um inicio de proposta da MediaCapital que acabou por não dar em nada por causa das “politiquices” internas do grupo.

Não tive alternativa. Voltei a ser empreendedor.

Arranquei com a RVTI, com o objectivo de construir um portal para concorrer com o Sapo. Ainda andei a tentar vender junto das empresas anteriormente referidas a ideia do portal. A ver se elas punham dinheiro. Nada feito. Aparentemente ainda não tinha demonstrado capacidade suficiente. Nem para um emprego nem para investimento. Arranquei à mesma com a empresa. Nos mesmos cubículos em que eu e o Sequeira tinhamos começado a Esoterica. Com mais 3 amigos que convenci a deixar os empregos e a quem pagava salário. Seis meses depois de termos começado a “codar”, o Grupo Forum comprou-nos o código todo. Os clientes deles, a Telecel, ia montar um portal e precisava de uma coisa em tempo útil. Foi um bom negócio. Acabámos por colaborar no projecto Netc. Mais tarde no portal da Oni e nos portais da Cabovisão.

Portanto: nem emprego nem empréstimo. “Deve ser por causa do cabelo comprido”, pensei eu.

Em 2001, na sequência do fim da bolha .com, fechei a RVTI. E estive a pensar um ano. Andava a pensar que era dessa que arrancava com uma empresa de jogos de computador. Mas acabei por decidir que se queria arranjar um emprego decente, o melhor era tirar um MBA. Para além de ir fazer contactos para um potencial emprego, sempre arranjava alguma coisa para minorar o efeito do cabelo comprido: “tenho ar de meliante mas tenho um MBA porra!”. Depois de terminar o MBA andei mais uma vez a fazer consultoria para uma série de empresas. Mais uma vez um ano a ver se aparecia o tal empregozito que me permitisse ter uma vida mais calma depois de quase 10 anos de empreendedorismo e 3 empresas (pelo meio ainda fui empresário da noite, gerente de um bar de música ao vivo). Mais uma vez, nada feito. Mesmo com o MBA não houve puto de propostas.

Não havia nada a fazer, era obrigado a ser empreendedor outra vez e era desta que ia arrancar com uma empresa de jogos.

Aqui a história tem uma variação. Em 2005 recebi uma proposta de emprego. De um Secretário de Estado. Um político. Para trabalhar na Administração Pública. Ironias da vida. Não tinha competências nem aspecto para arranjar um emprego numa dessas empresas importantes onde se anda de fato e gravata e se fala de assuntos sérios. Mas pelos vistos isso não era problema para dirigir um organismo público com sérias responsabilidades. E que incluia algum risco político, tendo em conta aqui o artista espalha brasas. Eu não queria aceitar. Até porque se ganha mal para o monte de trabalhos envolvidos. Mas decidi fazer o sacrifício. Também pelo contributo para a Nação, mas acima de tudo por me terem convencido e eu me ter convencido de que seria algo importante para a minha credibilidade e para confirmar as minhas competências. Ah e claro para minorar o efeito do cabelo comprido.

Saí do Ministério da Justiça no ínicio de 2008 para poder finalizar a minha tese de mestrado, mas com um segundo fito: era desta que eu ia receber uma proposta interessante para um emprego porreiro. Esse foi aliás um dos argumentos que usaram para me convencer a aceitar ir para o Ministério. “Depois de lá estares vais ver que é trigo limpo arranjares um cargo a sério ou então obteres investimento para qualquer ideia que queiras montar”.

Andei um ano a fazer consultoria e a apresentar o “produto”. A ver se arranjava o tão almejado emprego. E por acaso até recebi algumas propostas, meia dúzia delas. Problema: a maioria era de fornecedores do ITIJ e do Ministério da Justiça. Obviamente estava fora de questão aceitar, ach0 que dá mau aspecto sair de um cargo público e arranjar um tacho num dos fornecedores. Note-se que não tenho nada contra o tacho: eu até queria um. Mas há um mínimo de decência… Houve uma proposta para um projecto muito interessante, uma proposta muito legítima. Que eu não aceitei por achar que as minhas competências valiam mais. A proposta era acima do razoável, mas entretanto eu passei a cotar-me mais alto. Para além de que tinha cortado o cabelo e isso tinha que ter algum valor adicional.

Por este lado, nada de emprego portanto.

No entretanto tinha aparecido a Y Combinator. E a malta no Takeoff convenceu-me que era necessário haver uma coisa do tipo em Portugal, a investir em startups. Mas o que eu queria mesmo era arranjar um emprego. Agora numa empresa de capital de risco. E o meu raciocínio foi: “porra!, com a minha experiência de empreendedor, com um MBA e com o cabelo cortado tenho o perfil ideal para um lugar de Entrepreneur In Residence numa das empresas de capital de risco nacionais”. Andei por aí a vender o “peixe” durante um ano. Nada feito.

Por este lado também nada de emprego.

“Bem, se não há emprego numa capital de risco, vou contactar investidores institucionais, bancos, business angels e etc, levanto o capital e crio uma mini capital de risco e o meu próprio posto de trabalho”. Ao fim e ao cabo também me tinham vendido a ideia que o meu perfil era o ideal e que depois de ter demonstrado ao longo de vários anos competências, credibilidade e responsabilidade, ia ser trivial arranjar financiamento. Ia ser diferente ser empreendedor com um financiamento a sério.

Nada feito. Foi por água abaixo aquela história de que capital há muito, faltam é ideias e pessoas com capacidades e competências demonstradas. Ainda pensei “se calhar é por causa do cabelo comprido”, mas entretanto lembrei-me que já o tinha cortado e fiquei sem conseguir justificar. A não ser que seja pela minha falta de competência. É uma hipótese…

Resolvi repetir fazer o que já parece ser sina: arranquei eu próprio com uma mini empresa de capital de risco com 15.000€ de capital meus. E entre família e amigos consegui levantar mais 200.000€. E autonomeei-me “Entrepreneur in Residence”. Pode ser que chame a atenção de alguma empresa e daqui a uns anos me ofereçam esse cargo numa capital de risco “a sério”. Não sei porquê, mas duvido. É um feeling que eu tenho…

Conclusão: eu até não nasci empreendedor, mas sou obrigado pela força das situações a sê-lo. Sou empreendedor voluntário à força.

13 comments

  1. Alexandre Gomes

    Parabéns pela franqueza!
    Não pensei ser possível encontrar algúem com um perfil semelhante ao Paul Graham cá em Portugal…
    Só falta uma versão portuguesa do “How not to die” http://www.paulgraham.com/die.html para eu ficar completamente coinvencido;)

  2. Joaquim Machado

    Extraordinário. Obrigado por esta lição de vida.

  3. Excelente artigo Mário. É bom ver casos de empreendedores (forçados ou não). Frontalidade é bem vinda.

  4. Epah eu até vinha aqui dizer que reforçaste a má ideia que tenho do nosso país mas acima de tudo e depois de pensar um bocadinho só posso dizer que me inspiraste pois não é todos os dias que leio a historia de alguém que meteu mãos à obra quando foi preciso e até se tem safado.

  5. É uma bela história de vida.. já podes acabar as novas oportunidades :-) lol.. Agora sem gozo, acho louvável essa maneira de viver e a grande capacidade para enfrentar os problemas, sem desistir e ir à procura de sempre mais, aliado a uma grande capacidade para criar qualquer coisa que possa ter apenas “meia perna”.

  6. Caro Mário,

    Acabaste de ganhar o meu respeito :o) [não que isso seja importante para ti he he he].

    Tens um perfil (e percurso) muito interessante!

    Obrigado por partilhares a tua experiência de vida.

    Hugz,
    Luis

  7. Ana Cristina

    Gostei mais uma vez de te ler e de recordar a aventura que tem sido os últimos 15 anos.
    Como o Luis Sequeira disse no seu blog (http://arundel.wordpress.com/2007/04/08/o-triunfo-dos-geeks-nacional/) , num outro País seria diferente, mas escolheste viver aqui e remar contra a maré e sei que isso até te dá algum gozo ;)

    Porque gosto de ler o que escreves? Porque escreves como pensas e como falas. Maior parte das vezes não és politicamente correcto, mas não és falso, nem sabes ser e é por seres verdadeiro e nunca te teres vendido que o tal emprego nunca chegou. Depois ainda há a inveja da competência, porque este é um País lindo mas muito mesquinho e invejoso do sucesso alheio.
    Agora, quero ver a história dos próximos 15 anos e continuar a fazer parte dela. Tem sido no mínimo animada ;)

    Ana Cristina

  8. Filipe Morais

    Comentário inspirador.

    Parece-me que anda aí muita pessoa a precisar de passar os olhos nisto, assim como quem não quer a coisa.

    Há que aprender que mesmo que não se consiga aquele “emprego” perfeito, aquele que parece que foi talhadinho para nós, sabem? (o mais provável é isso ser mito, urbano ou rural!!), o importante é pôr-mo-nos a mexer e fazer andar as coisas, sejam elas o que tiverem que ser.

    Ponham-se a mexer, com tacho, sem tacho (tentem primeiro, por uma questão de por que sim), trabalhem para o governo, para a empresa que vende groselha ou para aquela outra que faz isso mesmo… melhor ainda, se não gostarem de nada, criem vocês o vosso trabalhito. Alguns euritos, ideias frescas ou em banho-maria e a coisa pode começar mas acima de tudo sejam competentes e sintam-se bem no que fazem.

    E cortem o cabelo

  9. Negócio de “investidores de risco” … hmms…

    Como é que isso coabita com o novo conceito de Zero Cost Startups?

    • Não coabita: não existem Zero Cost Startups.

      O que existem são Low Cost Startups. Com essas coabitamos suportando os “Low Costs” e aumentando as probabilidades de sucesso da startup com o nosso know-how.

      — MV

      • O que eu (e outros) entendemos por zero no termo “Zero Cost Startup” é o mesmo “zero” que custa descarregar da Net uma edição de um Ubuntu. Não se trata de zero absoluto, mas de um valor que “é como se fosse”.

        É isso que entendes como “Low”? Se sim, então ok :)

        • O problema é que uma “Zero/Low Cost Startup” tem custos para além do software. Tem custos adicionais e que não são marginais (como o “quase zero” do download). Há custos de infraestrutura (ex: instalações), custos legais e de burocracia (ex: contabilidade), custos diferidos pela falta de experiência (ex: a coisa dá para o torto).

          É para suportar esses custos que dá jeito ter investimento.

          — MV

  10. Ricardo Martins

    parabéns..

    um testemunho de vida bastante motivador e inspirador!!

    boa sorte para este novo projecto

    cumprimentos
    ricardo martins