(A propósito de um comentário de António Costa no programa Quadratura do Círculo)
“A situação a que chegámos não foi uma situação do acaso. A União Europeia financiou durante muitos anos Portugal para Portugal deixar de produzir; não foi só nas pescas, não foi só na agricultura, foi também na indústria, por ex. no têxtil. Nós fomos financiados para desmantelar o têxtil”
Com o pressuposto de que Portugal (e outros países da UE, como a Grécia) iriam aproveitar os fundos, modernizarem-se, subir na cadeia de valor. Mas não foi isso que aconteceu.
O que aconteceu foi que continuámos a pescar, a agriculturar e a textilar, com uma agravante: em menos quantidade e volume. Os dinheiros entretanto foram usados para fazer Expo’s, estádios de futebol e outros. Assim de repente lembro-me das fraudes com os dinheiros para formação.
“porque a Alemanha queria (a Alemanha e os outros países como a Alemanha) queriam que abríssemos os nossos mercados ao têxtil chinês basicamente porque ao abrir os mercados ao têxtil chinês eles exportavam os teares que produziam, para os chineses produzirem o têxtil que nós deixávamos de produzir.”
A ideia de que a Alemanha depende da venda dos teares para a China é ridicula e risivel. Dada a escala, era irrelevante para a Alemanha continuar a vender teares para Portugal.
“E portanto, esta ideia de que em Portugal houve aqui um conjunto de pessoas que resolveram viver dos subsídios e de não trabalhar e que viveram acima das suas possibilidades é uma mentira inaceitável.”
Não, não é. Os portugueses aceitaram deixar de fazer algumas actividades. Não deviam ter aceite. Mas a ideia de que valia a pena foi-lhes bem vendida por Mário Soares. Mas aceitaram. Com o pressuposto de que iriam ter mais produtividade, criar mais valor. Não fizeram. Portanto o nível de vida a que ascenderam era falso, vazio. Foi feito à custa do mau uso dos dinheiros europeus.
“Nós orientámos os nossos investimentos públicos e privados em função das opções da União Europeia: em função dos fundos comunitários, em função dos subsídios que foram dados e em função do crédito que foi proporcionado. E portanto, houve um comportamento racional dos agentes económicos em função de uma política induzida pela União Europeia.”
Obviamente. É o resultado usual da intervenção estatal e socialista na economia e nos mercados. Os agentes económicos têm um comportamento racional e transformam a onda criada pela intervenção num tsunami destrutivo. O que António Costa diz resume-se a uma coisa: a intervenção europeia estatal e socialista dá maus resultados.
“Portanto não é aceitável agora dizer… podemos todos concluir e acho que devemos concluir que errámos, agora eu não aceito que esse erro seja um erro unilateral dos portugueses. Não, esse foi um erro do conjunto da União Europeia e a União Europeia fez essa opção porque a União Europeia entendeu que era altura de acabar com a sua própria indústria e ser simplesmente uma praça financeira. E é isso que estamos a pagar!”
Mas quem é a União Europeia? A União Europeia somos nós também. A União Europeia não entrou Portugal dentro a impôr politicas. Portugal discutiu-as e aceitou-as. A introdução do pseudo argumento preconceituoso “simplesmente uma praça financeira” também não passa. A Europa, ainda antes de ser União, já era uma praça financeira. Felizmente. A seguir aos Estados Unidos, a Alemanha, a França e a Inglaterra já constituiam uma “praça financeira” relevante. E ainda bem. É isso que permitiu e permite aos europeus terem o nível de vida que têm.
Adicionalmente não resisto a fazer um comentário: o António experimente ir à praça sem dinheiro e ver se alguém lhe vende batatas. Vai rapidamente perceber que uma praça tem necessariamente uma componente financeira.
A ideia de que os portugueses são responsáveis pela crise, porque andaram a viver acima das suas possibilidades, é um enorme embuste. Esta mentira só é ultrapassada por uma outra. A de que não há alternativa à austeridade, apresentada como um castigo justo, face a hábitos de consumo exagerados. Colossais fraudes. Nem os portugueses merecem castigo, nem a austeridade é inevitável.
É inevitável, é. Ou, como diz o outro, as dívidas dos Estados não são para se pagar? Os Portugueses não merecem o castigo. Quem o merecia seriam os politicos socialistas que nos governam desde 1974. A esquerda estatista, que inclui o CDS e o PSD, governam Portugal há quase 40 anos com maus resultados.
E não, isto não é qualquer tipo de saudosismo salazarista (por sinal também socialista). A pretensão de que à direita do centro-esquerda do CDS apenas existem fascistas é um embuste e um chavão. Sendo certo que a pretensão de que as opções politicas de cada apenas se podem dividir em “esquerda” e “direita” também é um embuste.
“Quem viveu muito acima das suas possibilidades nas últimas décadas foi a classe política e os muitos que se alimentaram da enorme manjedoura que é o orçamento do estado. A administração central e local enxameou-se de milhares de “boys”, criaram-se institutos inúteis, fundações fraudulentas e empresas municipais fantasma.”
A sério?!? No shit!? A classe politica à qual o António pertence? A classe politica que governou o país à esquerda durante quase 40 anos? Aquela que criou a Fundação para as Comunições para entregar o fabrico de Magalhães a uns bois que estavam no melhor lugar da manjedoura e que passou uns milhões para a Microsoft a custo de ter uma visitinha do Bill com direito a autógrafo?
“A este regabofe juntou-se uma epidemia fatal que é a corrupção. Os exemplos sucederam-se. A Expo 98 transformou uma zona degradada numa nova cidade, gerou mais-valias urbanísticas milionárias, mas no final deu prejuízo. Foi ainda o Euro 2004, e a compra dos submarinos, com pagamento de luvas e corrupção provada, mas só na Alemanha.”
Aqui tenho de concordar. De 1995 a 2010 foi um regabofe. A Expo 98, os estádios de 2004, as autoestradas paralelas (não fosse uma entupir). Os responsáveis deviam ser chamados à pedra. É preciso identificar esses malandros. Quem foram? Ora deixa cá ver: de 1995 a 2010, foram 15 anos de governo do Partido Socialista, com excepção de 2 anos de um governo PSD um bocadinho menos socialista. Assumo que a insinuação dos “submarinos” ter calhado em 2 anos dos 15 foi simplesmente coincidência. Ou não.

Em cima está uma águia. Em baixo um abutre.
As PPP criadas em 15 anos por partidos de esquerda, maioritariamente o Partido Socialista ao qual pertence? O polvo do Manuel Godinho e do Armando Vara? O polvo que leva o ex-comunista ex-socialista ex-ministro Pina Moutra a, usando um dichote favorito da esquerda, ajoelhar-se perante os senhores do capital e do petróleo? O polvo que permite que Jorge Coelho passe de ministro a administrador de uma empresa com óbvios conflitos de interesses? O polvo que é polvo porque mistura interesses estatais e interesses privados?
O BPN e BPP foram de facto um problema. Esses porcos “capitalistas” (porque de capitalistas tinham pouco) deviam ter sido deixados ao abandono, deixá-los falir e arcar individualmente com as consequências. É para isso que serve a Justiça. Os pequenos depositantes, com menos de 100.000€, estavam protegidos automáticamente pelo fundo interbancário. Quanto aos outros, com mais de 100.000€ de valores metidos no BPN, azaruncho. Tinham dinheiro e capacidade tivessem avaliado melhor o risco. Mas não. Havia que proteger a “sociedade”. Havia que ser “socialista”.
Se o PS não tivesse decidido nacionalizar o BPN (“a bem da sociedade”) não tinha havido problema nenhum com o BPN e o BPP. Os portugueses não tinham de andar a pagar os depósitos dos “capitalistas”. Daqueles capitalistas da tanga que vivem à custa da manjedoura do Estado.
“Enquanto isto, os portugueses têm vivido muito abaixo do nível médio do europeu, não acima das suas possibilidades. Não devemos pois, enquanto povo, ter remorsos pelo estado das contas públicas.”
Ai devemos pois. As contas públicas estão como estão porque nos deixámos enganar com facilidades. Porque achámos que só existiam benefícios e que eles vinham sem custo nenhum. Porque achámos que não era preciso pagar mais impostos para ter benefícios como o rendimento mínimo, os estádios do Euro 2004 e por aí adiante.
Alguém se esqueceu de nos avisar que obter dinbeiro emprestado implicava pagar juros. E que esses juros são impostos encapotados. Só que ficam debaixo do tapete. Empurra-se com a barriga. Lá mais para a frente há outros que vão pagar a factura. Calhou-nos agora a sorte.
“Devemos antes exigir a eliminação dos privilégios que nos arruínam. Há que renegociar as parcerias público–privadas, rever os juros da dívida pública, extinguir organismos… Restaure-se um mínimo de seriedade e poupar-se-ão milhões. Sem penalizar os cidadãos. Não é, assim, culpando e castigando o povo pelos erros da sua classe política que se resolve a crise.”
Não me vou repetir sobre por quem é a classe política que devia pagar pelos erros. Mas vou dar um exemplo caricato da mesma.
“Eh, pá, isto dava jeito gastar umas massas para ajudar a Economia”, disse o Ministro da Economia Pina Moura. “Mas é uma merda, vou ter de pedir autorização ao Ministro das Finanças”, concluiu. Mas subitamente fez-se luz: “Mas pera lá!!! Eu sou o Ministro das Finanças! AAAWWWWWWYYYYYYEEEEEEAAAAHHH! Spend all the money!!”.
Um tipo que foi comunista, depois socialista e agora é capitalista. Um tipo que tem a lata de vir dizer para a televisão que os problemas que estamos a passar deviam ter sido resolvidos há 10 anos ou 15 anos atrás. Quando ele, o próprio artista da rádio-cassette-tv-e-disco estava no Governo. Como Ministro da ECONOMIA *E* das FINANÇAS.
Palhaço…
“Resolve-se combatendo as suas causas, o regabofe e a corrupção. Esta sim, é a única alternativa séria à austeridade a que nos querem condenar e ao assalto fiscal que se anuncia.”
A austeridade não é uma condenação, é uma necessidade. Permanente, diria eu, uma vez que significa rigor e parcimónia coisa que não acontece com o uso dos dinheiro públicos. Quanto ao assalto fiscal não há nada a fazer. Uns assaltantes não quiseram fazer barulho e deixaram para trás uma bomba relógio. Que explode agora nos assaltantes que se seguiram.
NOTA: tenho o maior respeito por António Costa como pessoa, pelas poucos vezes com quem interagi. Como socialista é dos que me causa menos alergia por ser dos mais razoáveis e racionais. O discurso em causa, no entanto, é completamente errado, populista e demagógico.